DOS NOSSOS MALES

“A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais…”

(Mario Quintana)

2017 foi um ano difícil.

Sim, eu sei, 99% da população mundial vai concordar comigo. Sei também que teve gente com problemas mais sérios, mais graves, mais difíceis de resolver. Mas, como diz o mestre Mário Quintana que tanto ensina com seus curtos versos, sempre “nossos calos doem mais” pois são em nós.

Então, há um ano, vim com a cara, a coragem e a bagagem toda de Curitiba a Osasco, região metropolitana de São Paulo. Licenciei-me de um cargo público e assumi novamente a rotina de advogada em escritório. Troquei, numa única semana, de carro, de emprego, de cidade, de estado. O que eu mantive? Meu marido (sempre!) e, a princípio, a minha rotina de treinos, por que eu já vinha inscrita para minha segunda maratona, com altas expectativas de baixar tempo.

Não precisa ser vidente ou já saber da história toda, pra saber que não deu certo. Enfrentei vários problemas pra me adequar aos horários da nova realidade. Enfrentei problemas com o clima. E enfrentei outros que acreditava serem psicológicos. Os treinos não rendiam, as pernas pesavam, os tênis “de sempre” apertavam. E eu seguia no lema “sou brasileira, não desisto nunca”, insistia mas ia me desanimando cada vez mais.

Corri em Porto Alegre em junho, mas claro que não diminuí a marca de Buenos Aires. Aumentou. Busquei uma nova meta, a Meia de Sampa, em Outubro, mas mesmo assim os treinos não rendiam. Não alcançava o “pace” que o Coach colocava na planilha e me sentia mal por achar que era “mimimi” meu. Por que antes eu conseguia e agora não rendia mais? Não conseguia entender.

Até que às vésperas da Meia de Sampa, depois do último longo feito, não consegui mais correr. Amanheci muito inchada. Os tênis simplesmente não entravam mais. Nem as calças, nem as camisetas, nem as roupas de trabalho… Opa! Era hora de ir ao médico.

Em Curitiba eu tinha total acompanhamento de nutricionista, médicos e fisioterapeutas, mas na mudança de rotina (e de plano de saúde também), admito que deixei tudo de lado. De um dia pro outro, não era mais possível achar que era tudo questão de cabeça.

Comecei, então, no inicio de outubro, um outro tipo de maratona: Entre consultórios médicos e laboratórios pra saber o que estava acontecendo.

No início, o sintoma era o edema. Depois passei a reparar na dor nos tornozelos. Os médicos perguntaram e sim, as unhas estavam fracas, eu estava desanimada… ah, o xixi? Clarinho mas sim com espuminha… nunca tinha reparado! Alguém sabe dizer se o seu xixi tem espuma? O meu tinha mas não me chamava a atenção.

Resumidamente (ficaria ainda mais longo o texto pra falar de todas as especialidades, todos os excelentes e aqueles nem tão bons médicos que consultei e os exames que pediram), fiz duas descobertas importantes: Estou com hipotireoidismo leve (o que como leiga posso dizer que me fez inchar e deixou meu metabolismo mais lento, além de trazer possivelmente alterações de humor que só dificultam as coisas) e ainda um quadro de síndrome nefrótica, pela qual meu rim parou de filtrar proteínas, que iam todas pra urina (a espuminha do xixi!). Resultado? Mais e mais edema, perda de massa magra, ganho de gordura e colesterol nas alturas.

Agora, estou diagnosticada e tratando com dois dos excelentes médicos que passaram no meu caminho (além das grandes e maravilhosas amigas médicas que sempre tem as palavras certas pra me tranquilizar) e já voltei a treinar. Mas isso me deixou muito mais atenta. Claro que olhar agora é mais fácil. Como eu não percebi que meu pé estava inchado no dia que saí pra fazer 26K e tive que tirar todo o cadarço do tênis e recolocar por que meu pé não entrava? Como não estranhei as pernas pesadas nos treinos semanais? Ou na falta de força de levantar da cama pra ir pra academia em tantas vezes? E até a falta de vontade de ir ao salão e me cuidar? E desde quando tinha aquela espuminha? Claro que tinha coisa errada. Mas é que minha vida tinha mudado tanto, que acreditei que era só “mimimi” mesmo. Hoje sei que não.

Então, meninas, eu sei que tem gente com problema pior e mais grave de saúde, e eu sou grata que o meu foi mais simples. Eu não estou contando tudo isso aqui para me fazer de coitada e vocês entenderem como sofri (pois eu sofri, sim, nestes meses, tive medo). Eu estou contando tudo isso para alertá-las.

Não menosprezem seus “ais”, não se sintam na obrigação de serem fortes e de cumprir a planilha acima de qualquer coisa. E se ouçam. Se não é normal estar desanimada, vai no médico, no psicólogo, sei lá, mas aceitem que pode ter algo errado. Se é um pequeno inchaço, não espere ele crescer como eu fiz. Se é um pequeno incômodo, não espere ser uma dor insuportável. Não, não somos “mulher maravilha” – graças a Deus – e também não devemos nada a ninguém. Não se cobrem tanto! A vida segue, de uma forma ou outra, mas é bem mais difícil quando o nosso corpo não está funcionando como devia. Não é por que alguém sofre mais que você, que o seu sofrimento tem que ser ignorado. Investigue, se cuide, sempre!

Recomeços

Depois de um intervalo de um ano e dois meses sem escrever por aqui, hoje eu retorno ao blog.

Quem me acompanha via Instagram (@corremulher – siga-me por lá!) sabe que muita coisa aconteceu nesse período. Eu corri minha primeira maratona, depois mudei de casa, de estado e de trabalho, insisti em correr minha segunda maratona, consegui terminá-la e continuei insistindo em continar a fazer de conta que era possível manter a mesma rotina, até que no mês passado a saúde não aguentou, dei uma leve pausa e agora estou tentando recomeçar com calma…

Assim, como parte deste processo de recomeçar a treinar e aprender a respeitar a nova rotina, retomo, finalmente também o http://www.corremulher.wordpress.com como um exercício para compreensão de tantas mudanças e sobre o que a corrida representa na minha vida. Vocês me acompanham nesta nova jornada?

E como não sou a única que vi minha vida se transformar nos últimos tempos, nada como buscar inspiração em outras mulheres que viram a vida toda “encaixadinha” virar de cabeça pra baixo de um dia pro outro, fui conversar com minha amiga Luciana Muniz pra saber como ela lidou com as mudanças na vida dela para buscar inspiração e saber como a corrida se faz importante em nossas vidas. Confiram nosso bate papo e a história incrível dessa minha amiga que é uma “mulher maravilha” da vida real!

IMG-20171110-WA0022Corre,Mulher: Lu, em que momento, digamos assim, você estava em seus treinos quando precisou fazer uma pausa?

Lu: Eu já corria há quatro anos, já tinha feito duas meia maratonas e tinha perdido peso e evoluído na corrida. Eu estava em um momento muito bom, bem focada nos treinos e na dieta. Encontrava-me no peso ideal e comtreinos puxados de pista, naquela fase de tiroteios pesada, sabe? De repente, numa quinta feira no trabalho toca o telefone e tudo muda , a vida da um giro de 360 graus! (risos)

Corre, Mulher: É verdade! Sua vida teve uma reviravolta enorme há cerca de dois anos atrás, não é mesmo? Pode contar como foi essa surpresa?

Lu: Então… Decidi que queria ser mãe e como o casamento ou um relacionamento sério não aconteceu , resolvi partir para adoção na mesma época em que começava a treinar corrida. Informei-me sobre os passos e comecei a correr atrás do meu sonho. Separei a papelada solicitada e fiz o curso. Estava habilitada. No inicio fiquei animada , olhava muita coisa de bebê e sonhava com esse dia. Como começou a demorar, desencanei achando que esse dia não chegaria nunca.IMG-20171110-WA0020Ocorre que depois de quatro anos de espera na fila da adoção, toca meu telefone e a assistente social, do outro lado da linha, com a maior naturalidade fala: “Oi Luciana,tudo bem? Sua filha chegou !!!!!!! Amanhã às 14:00, você tem audiência com a juíza ,ok?” e desliga o telefone!!!!Meu Deus… era uma mistura de alegria e susto! Eu morava sozinha, trabalhava o dia todo e treinava quatro vezes por semana. Eu saia de casa cedinho e só voltava às 20h da noite depois de ter treinado. Como eu faria? Fui na audiência marcada para às 14 horas do dia seguinte. Às 15 horas já estava no lar para conhecer a Clarinha, minha filha! Como era uma sexta feira, a juíza disse que não liberavam crianças nos finais de semana, então eu teria que voltar na segunda para busca-la. Foi o fim de semana mais agitado da minha vida. Eu precisava mudar toda a casa para receber um bebê. Graças à Deus, ganhei tudoooooooooooooo no fim de semana! Cada um dos amigos com quem eu falava, tinha algo para compor o enxoval da Clarinha! O que as famílias organizam em meses, normalmente, fiz em um fim de semana!

Corre,Mulher: Mas e a corrida, como ficou? Foi muito difícil retomar a planilha? O que te fez voltar?

Lu:Nunca pensei em parar de correr pois me apaixonei pelo esporte, pela sensação depois que terminava de correr, pela mudança estética e pelos amigos que a corrida me apresentou.Claro que a chegada de um bebê muda tudoooooo! No início, eu me assustei e achei que não voltaria. Depois ganhei um carrinho dos amigos da corrida para que eu pudesse treinar com ela. Isso me animou muito e então coloquei na cabeça, mesmo não treinando forte como eu estava, que era melhor caminhar, trotar e aos poucos me acostumar com o peso do carrinho, mas desistir não estava estava nos meus planos. Meu lema era “Desistir jamais!!!!!!!!!!! Devagar e sempre!!!!!!”  Como moro em Curitib, nem sempre o clima permitia sair com a frequência que eu gostaria. Sair no frio sozinha para correr é diferente do que sair com bebê. Mas mesmo sem frequência, a corrida fazia parte da minha vida.

Corre,Mulher: E hoje, como estão seus treinos? Mudou a forma como você vê a corrida? E as suas metas?

Lu: Hoje eu treino, MAS NÃO COMO GOSTARIA AINDA. o meu objetivo é correr independente do pace. O importante é não parar. Saio com a Clarinha e corro 5km , 6 km. É o tempo que ela aguenta no carrinho. Quando a vovó fica com ela, que são raras as vezes, saio sozinha para correr na rua ou na esteira para não perder tempo no trânsito para chegar em algum parque. Minha meta no momento é conseguir correr três vezes na semana, conciliando trabalho, bebê, fazer mercado, limpar a casa ,cozinhar e tudo mais. Quando ela estiver perto de quatro anos sei que vou poder treinar novamente com assessoria , traçar novas metas e realizar algumas provas que tenho como sonho.

Corre,Mulher: Se pudesse dar um conselho para quem parou, por qualquer motivo – lesão, compromissos diversos ou um lindo bebezinho, como você – e que não está conseguindo voltar, qual seria?

IMG-20171110-WA0024Lu: Volte hoje. Independente se foi lesão, trabalho que consome seus horários ou a chegada de um bebê, volte hoje. Eu sempre penso assim: Ao invés de ficar no sofá, coloco tênis e saio correr. Ahhh, mas só meia hora??? Se eu só tenho esse tempo,mesmo sendo pouco, eu aproveito. Se o seu caso e igual ao meu com bebê , já digo que não e fácil mas não e impossível. Precisa apenas de planejamento e organização. A gente tem que se trocar, trocar o bebê, pegar carrinho, um brinquedo para distrair bebê, cobertinha, água , fruta… Dá trabalho mas no final vale a pena, pois liberou a tal da endorfina e pegou aquele ventinho no rosto!